quinta-feira, 10 de setembro de 2009

The Hottest State


Hoje vou falar de um filme que me marcou e que vi há não muito tempo.

Este The Hottest State é realizado por um dos actores que mais admiro em Hollywood e que infelizmente não teve ainda o reconhecimento nem a sorte que merecia ter no que diz respeito a ter trabalhos que o permitam almejar a prémios etc.

Devo dizer que grande parte da admiração cresceu com a sua fantástica participação no Before Sunrise / Before Sunset do seu mentor Richard Linklater.

Este The Hottest State é uma adaptação de um romance (há quem diga meio autobiográfico) com o mesmo nome, escrito por Ethan Hawke. Parte da ideia do livro e das suas personagens, capta a essência da mensagem, mas reconstrói-a para uma história um tudo o nada diferente, mas em que as reflexões e as sensações que desperta são semelhantes… Apenas opta por melhorar alguns aspectos e transforma-los para que a mensagem chegasse não de uma forma tão crua ao público e salientar os momentos, as reflexões e diálogos que Hawke mais valorizava do livro, cortando algumas partes desnecessárias e tratando outras com outro envolvimento.


Este filme é o 2º trabalho como realizador de Etan Hawke. Vê-se claramente a influência do seu mentor Linklater, que o marcou com esse grande trabalho que foi o Before Sunrise e que aguçou esse bichinho de ir mais além, quando escreveu o argumento para a continuação da história de Jesse e Celine e o seu reencontro no Antes do anoitecer…Aí o argumento foi partilhado entre ele, Linklater e também a brilhante actriz Julie Delpy, agora também a aventurar-se na realização com o seu 2 days in Paris.
.
Não deixa de ser curioso que ambos tenham trabalhado com Linklater e demonstrem ambos agora aptência para trabalhar por detrás das câmaras cada um com as suas ideias próprias e estilos, tal como já se reparava na construção das personagens Jesse e Celine e no se trabalho a desenvolve-las…
.
Mas vamos ao filme.
Trata-se da história de um jovem aspirante a actor, William, proveniente do Texas e que conhece uma jovem aspirante a cantora, Sarah, em NY aonde ambos tentam prosseguir esses seus sonhos. Sarah tinha decidido ser independente e não deixar que nada nem ninguém lhe impedisse ou a fizesse sentir-se novamente presa…. Ambos eram jovens algo que encurralados por momentos do passado, por traumas antigos , no caso de William decorrente de ser filho de pais separados e não ver o seu pai desde os 8 anos.

William apaixona-se perdidamente por ela, é talvez a 1ª vez na sua vida em que sente de facto algo tão forte por alguém, por aquela rapariga algo misteriosa e que não lhe parece dar certezas nenhumas de o amar de volta…Ou pelo menos não o demonstra tal como ele.

Passam no entanto duas semanas no México juntos aonde a paixão, o sexo, o amor e o conhecimento e partilha mútua ficam impregnadas nas paredes do quarto do hotel que mal abandonam… William tem que ficar mais 3 semanas para gravar um filme, Sarah volta à sua vida normal, em NY sem ele…

Quando William volta, parece que tudo mudou… A sua Sarah apaixonante que até queria casar com ele no México, tinha-se tornado noutra pessoa…O amor que antes parecia cada vez mais uma certeza tinha-se desvanecido de forma tão bruta e intensa como lhe apareceu na vida…
.
Isso remete-lhe a pensar na sua vida, em si próprio e durante grande parte do filme sentimos o seu desespero, a sua luta para entender o porquê…O porquê de algo que se quer tanto, ter que acabar e não estar no seu poder mudar e voltar atrás…
.
Ethan Hawke realiza muito bem este filme para quem ainda está no começo desta carreira.
Durante o filme consegue fazer-nos animar com aquela paixão por aquela rapariga doce e misteriosa e ao mesmo tempo leva-nos a locais obscuros de dor contínua... quase como sentimos o arrastar vagaroso daquela série de sentimentos de perplexidade, de inconstância, de não saber o quê nem o porquê, a dor física mesmo da perda de alguém com quem sonhávamos ter tudo e agora dela apenas nos resta o vazio dos seus olhos, como se a mesma pessoa que ele conhecera fosse apenas uma recordação de algo que na verdade nunca foi real…
.
Este filme tem como falhas alguma descontinuidade em alguns diálogos no que diz respeito ao argumento, pois é um filme de momentos, torna claro que Hawke valoriza muito a criação de momentos de reflexão perante diálogos, alguns deles brilhantes ,de grandes ideias base que ele quis espalhar perante as personagens do filme.
.
Não é a história comum de um amor, de rapaz conhece rapariga, química e lá está um filme de final feliz… Não é sequer a história de um casal…É a história do jovem William e a forma como ele lida com o mundo que observa, como ele cresceu nele e a forma como ele lida com a dor da rejeição e isso o faz aproximar-se de questões do seu eu íntimo que ele antes nunca havia valorizado ou sempre havia tentado escapar delas. Perante uma situação nova, apercebe-se que tem uma série de assuntos do passado mal resolvidos e que isso o faz não conseguir lidar com o seu sentimento presente… Porque na verdade nunca resolveu essas carências e nunca as enfrentou…
Fantasmas como o abandono do pai e o facto de este ter criado uma nova família e nunca mais ter contactado com ele desde os 8 anos…Coisa que William nunca houvera enfrentado antes, ou visto como um problema, mas que no caos que a sua vida se torna, repara de que muito do que tem sido a sua vida é o reflexo da forma como ele apreendeu esse momento da sua vida… Como a grande admiração e memórias de infância do pai contrastam com a dor silenciosa de no seu intimo sempre ter achado que o pai um dia o quereria com ele…A forma como isso implicou a sua relação algo estranha com a mãe e a forma como encarava as mulheres ou simplesmente lidava com sentimentos mais complexos para ele…Como um momento da sua infância poderia ter afectado tanta coisa nas suas decisões e na forma de ele ser que ,a partir de certa altura ,já ele nem sabe bem porque caminhos percorrer a tentar encontrar respostas… Respostas ocultadas perante a pergunta fundamental que é o que deve ele fazer para ter a Sarah de volta, quando no fundo esse problema é apenas a ponta do iceberg… A Sarah foi o despoletar de uma série de dúvidas, receios e sentimentos que William sempre guardara com ele, mas nunca ninguém tinha conseguido fazer tocar tão fundo no seu íntimo….
.
É um filme em que se vê William à procura desesperada de respostas… Um filme sobre crescimento, sobre auto conhecimento através da perda, da dor e da rejeição.
Mostra a ideia que o nosso primeiro verdadeiro amor, aquele que nos é capaz de transportar para locais nunca antes visitados pela nossa alma, capaz de nos fazer sentir que somos capazes de voar... a sua perda é capaz de nos fazer cair abaixo do chão…

Parte da ideia que o estarmos apaixonados e amarmos alguém e lidarmos com essa rejeição ou a perda dessa pessoa, o 1º grande desgosto amoroso, tal como todos os outros, mas o 1º em especial ,acaba por ser a melhor forma de nos conhecermos a nós próprios….Os nossos limites, o que somos capazes de fazer e sentir e nunca imaginamos ser capazes e até como algo tão forte como esses sentimentos nos pode destruir por dentro, mas como por entre essa viagem no final nos vemos com maior claridade que antes e nos conhecemos melhor.
.
Neste filme destaco as interpretações secundárias brilhantes da fantástica Laura Linney e do próprio Ethan Hawke que faz de pai e tem uma das cenas mais marcantes de todo o filme, que é quando nesse processo de descoberta, William vai até ao Texas para confrontar o pai,desesperadamente à procura de respostas, para poder ter a Sarah de volta, quando no fundo, são respostas sobre ele próprio e a forma como ele lidou com o enorme amor que sentia em pequeno pelo pai e pela forma como lidou com o facto dele o ter deixado que ele procura sem saber...


Ao longo do filme, Hawke joga muito bem com o tempo e os flashbacks de William sobre momentos com o seu pai que o marcaram e dos quais nunca se esqueceu e de conselhos que nunca entendera muito bem como “ Nunca afastes o teu coração do Texas” … Desesperado William procura respostas, para ele ser da forma como é e não de outra e se é por isso que perdeu a Sarah… Procura respostas, culpas e culpados acaba por descobrir que a resposta não existe, mas que nesse processo ele saiu a conhecer-se... e conseguir conhecer-se e confrontar-se como nunca o havia feito, e isso no final fez com que se sentisse mais livre e a aprender a lidar com o passado, o presente que o magoava e com o futuro que estava ainda à sua frente…

Acabará porventura por até perceber que apesar de ouvir vezes sem conta os mesmos conselhos, nunca propriamente os entendeu até esse momento….Nunca apreendeu a sua verdadeira mensagem…
.
Destaco também o brilhante momento do filme que é o extraordinário diálogo entre William e a sua mãe, pedindo-lhe conselhos sobre Sarah…
.
Mas há várias frases e momentos marcantes num filme que é um trabalho sentido e autêntico de Ethan Hawke, ele expõe-se bastante neste trabalho e a sinceridade do mesmo compensa uma ou outra falha que possa ter, normais para quem ainda está a começar…
.

Outro grande destaque deste filme é a excelente banda sonora( vejam o video de um post anterior com a música Never see you again)….Muito bem escolhida para ser a voz angelical de Sarah, intepretada por Catalina Sandino Moreno. Uma escolha de Hawke a que obrigou a algumas alterações da história original do livro…Faltou ser ela a fazer as cenas de canto, mas a sua voz a cargo de Rocha ficou muito bem entregue...E todo o filme ganha uma dimensão ainda mais profunda pela sua excelente e oportuna banda sonora, escolhida a dedo para o tipo de filme e o tipo de sentimentos que Hawke se propôs debruçar neste filme e para cada cena.

Alguns críticos esperavam mais desenvolvimento do lado emocional e a forma de pensar de Sarah mas não me parece que a intenção de Hawke fosse essa… Trata-se de uma quase autobiografia romanciada, trata-se da forma como o jovem William via Sarah e a sentia, e não aquilo que era na verdade… isso aplica-se a todas as demais personagens…É a forma como William as vê e como responde aos seus estímulos. É um filme sobre auto descoberta e como o estarmos apaixonados e termos um desgosto amoroso pode ser a forma mais sincera e profunda de estarmos connosco próprios e nos conhecermos de facto.
.

Poderia escolher várias cenas que me marcaram no filme mas deixo aqui para mim a cena mais forte… A tal cena em que William confronta o pai. Brilhante diálogo e excelente representação de Hawke e do jovem Mark Webber que é aliás um actor que pode ter um excelente futuro.














.
Aqui fica o trailer para aguçar o apetite de quem ainda não tenha visto o filme...:










.
Deixo aqui algumas passagens quer do filme quer do livro que acho brilhantes...:

"It was Wednesday when we met, Saturday when I asked her to move in, and by Sunday there were flowers in my apartment and hummus in my refrigerator. I don't remember waking up that Sunday. I don't think I ever slept. I just sat there thinking, "God damn, this must be what praying is like."


"Your whole life, people are gonna ask you to be weak. They're gonna practically beg you. But all anyone really wants is for you to be strong.
"


"My heart is gold, What will you give me for it "

" Dont you find it odd that when you were a kid everyone in the all world tells you to follow your dreams, but when you get older they act offended if you even try..."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Always on my mind



Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Little things I should have said and done
I just never took the time

You were always on my mind
You were always on my mind

Tell me, tell me that your sweet love hasn't died
Give me, give me one more chance
To keep you satisfied, satisfied

Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times
And I guess I never told you
I'm so happy that you're mine
If I make you feel second best
Girl, I'm sorry I was blind

You were always on my mind
You were always on my mind

Tell me, tell me that your sweet love hasn't died
Give me, give me one more chance
To keep you satisfied, satisfied

Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You are always on my mind

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Tom Jobim e Vinicius de Moraes


Hoje pretendo deixar uma homenagem a duas personalidades da cultura brasileira que pela sua genialidade se tornaram património mundial...Duas pessoas que admiro profundamente. Acho piada quando vejo brasileiros a encherem-se de orgulho a falarem do seu futebol e dos seus craques passados e presentes...Para mim a maior herança que o Brasil deixou para o Mundo não foi o futebol,nem é o futebol o motivo que mais deveria encher de orgulho os brasileiros,mas sim o facto de o Brasil ser o país de dois génios...a palavra aqui soa tão mal,porque estas duas personalidades estão num grau acima de génio...
.
Uma vez li um texto de um fã espanhol que agradecia o facto de estes dois terem existido e termos todos tido a sorte que eles se tenham juntado numa sociedade perfeita entre harmonia e contudo, parecem uma dádiva dos céus para que todos nós os comuns mortais pudéssemos desfrutar de canções e poemas que parecem escritos não por pessoas mas por anjos.
.
Falo de Vinicius de Morais e Tom Jobim. Para mim eles são dois dos maiores génios não apenas da música brasileira,mas da música mundial...Acho que dotaram os sentimentos de outra profundidade, a percepção de todos nós em relação a eles passou a ser mais doce, mais profunda pela forma como eles os conseguiram pintar nessa linda tela que foram todas as suas obras....
.
Vinicius tem uma obra de poesias belíssima e juntou-se ao excelente compositor Tom Jobim para fazer alguns dos grandes clássicos da música brasileira e juntamente com outros imortais como Toquinho e outros foram os grandes percursores do movimento Bossa Nova...Talvez dos mais bonito que a música já conheceu...Músicas como a Garota de Ipanema que é a música brasileira mais tocada e interpretada de todos os tempos e marca um estilo, um movimento cultural.
Por vezes imagino como seria viver nesses tempos de explosão cultural em que tantos génios imortais conviviam e trabalhavam em conjunto para deixarem tão belos pedaços de arte para gerações e gerações...imagino como seria assistir aquelas festas no Rio nos cafés típicos em que a bossa nova rolava até às tantas da manhã e nunca era tarde para se deslumbrar com as palavras....Palavras que ficaram eternizadas na grande obra destes dois...
.
Gostava de encontrar palavras,as palavras certas,mas a verdade é que perante algo tão irrealisticamente perfeito como nunca vi,todas as minhas palavras parecem idiotas...
.
.
Hoje deixo-vos aquela que é para mim uma das mulheres músicas de todos os tempos acompanhada por um dos poemas que mais gosto de Vincius de Moraes,o soneto da fidelidade.
.
Eu só posso agradecer o facto de por obra de algo superior estas duas personalidades tenham existido e todos tenhamos tido a sorte que ambos se tenham encontrado....Eram como almas gémeas, nunca nada fez tão sentido como as letras de um e as brilhantes composições do outro...Talvez a maior sociedade alguma vez criada na história da música...
.
Sinto-me um verdadeiro privilegiado por poder ter sido tocado pela sensibilidade, profundidade e beleza dessas duas mentes brilhantes que são Vinicius de Moraes e Tom Jobim...
.
Para todos os que por este blog passem, aqui fica para escutar e acima de tudo sentir cada palavra deste clássico não só da música brasileira mas mundial...
.
"Eu sei que vou te amar" de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, na voz de Maria Creuza e com a declamação do poema "Soneto de Fidelidade" a cargo do imortal e inigualável Vinicius de Moraes... Parece impossível que seja possível alguém conseguir imprimir tanta emoção,tanta ilusão e ao mesmo tempo realidade cravada em cada instante nesta sonoridade tão bela e palavras tão brilhantes...O Mundo não pára de nos surpreender com estes pequenos momentos de pura...magia. Obrigado Tom Jobim e Vinicius por, nem que seja por minutos ,encheram a vida das pessoas de magia e arrancarem-nas do marasmo que é deixarem-se guiar apenas por coisas mundanas e não apreciarem estas autênticas obras de arte...


.



Eu sei que vou te amar/ Soneto da Fidelidade (composição Tom Jobim, Vinicius de Moraes)

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida
.
Soneto da fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Let there be love...



Let there be love- Oasis

Who kicked a hole in the sky so the heavens would cry over me?
Who stole the soul from the sun in a world come undone at the seams?

Let there be love
Let there be love

I hope the weather is calm as you sail up your heavenly stream
Suspended clear in the sky are the words that we sing in our dreams

Let there be love
Let there be love
Let there be love
Let there be love

Come on Baby Blue
Shake up your tired eyes
The world is waiting for you
May all your dreaming fill the empty sky
But if it makes you happy
Keep on clapping
Just remember I'll be by your side
And if you don't let go it's gonna pass you by

Who kicked a hole in the sky so the heavens would cry over me?
Who stole the soul from the sun in a world come undone at the seams?

Let there be love...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

No teu quarto

Naquele noite o tempo parou.

Fitava a sua cara angelical por entre um sorriso discreto mas que era nela tão puro e transparente quando representava contentamento e felicidade. Era o seu quarto, o seu pequeno mundo.

Sempre me senti mais confortável com a ideia de um espaço que não fosse o meu, ou totalmente meu, ou desde sempre meu, que não fosse criado por mim.

Na verdade imaginava como seria um quarto diferente ou caso eu tivesse a capacidade para fazer a mudança desde dentro ( “so I start a revolution from my bed”) que não o tivesse que o olhar com os meus olhos. Que conseguisse reflectir algo em mim, que tivesse reflectido alguns dos meus gostos, um pouco do que sou.

Os quartos devem ser os locais mais íntimos, mais pessoais, é neles que sozinhos à noite nos confessamos e confrontamos... diante daquelas paredes ficam os fantasmas que nos perseguem e da janela vemos o sol a nascer lá fora enquanto os nossos sonhos se desvanecem ao acordar e outros se vão criando e projectando.

É um local como que “sagrado”, num único local se depositam tantos anseios, tantos receios, tantos momentos e memórias todos acumulados nesse pequeno espaço… engraçado…ao mesmo tempo quando olho para ele apenas vejo uma pequena clausura de memórias distribuídas de forma desordenada, as paredes parece que me cercam, o espaço e o ar é por vezes sufocante… sinto-o como um reflexo do meu pequeno caos interno.

Não reflecte o meu lado mais solar (talvez porque nunca tenha sido muito dedicado a ele), os meus gostos, interesses, sonhos, não me capta totalmente, a minha essência… apenas demonstra uma parte de mim próprio que se entrega e não consegue mudar pequenas coisas, nem que seja o seu próprio quarto.




Queria viajar para outro quarto, mas ao mesmo tempo o saber que aquela cama é só minha, o saber que dentro daquele espaço desordenado e caótico apesar de tudo só eu me via a mim próprio e não tinha que partilhar esse espaço. Fazia-me sentir confortável no desconforto, mesmo naquelas inúmeras horas em que o tenho que confrontar…Mesmo evitando esse momento em que nele me vejo só e tenho que adormecer.
Apesar desse comodismo, ele nunca me fez sentir verdadeiramente tranquilo, feliz nem me ajudou a adormecer…Talvez no inicio…Como uma relação…Se calhar ele foi-me conhecendo e eu a ele e depois fomo-nos perdendo um do outro e afastando progressivamente…Tal como a relação com uma planta, se calhar deixei de o regar e ele foi murchando e assim deixei de tentar lutar por ele por sentir que ele também nada fazia por mim. Muitas relações degradam-se assim…Umas acabam, outras vivem acabadas numa continuidade aparente.
.
Talvez por isto, eu amava todos os pequenos pedaços do seu quarto…todos os cantos dele…Pelo facto de não me ver a mim nele, apesar de me ver a viver nele com ela…Mas isso era diferente. .. Nos primeiros tempos, nas primeiras vezes que nele entrei era como conhecer alguém… Encantava-me…Apaixonava-me e ao mesmo tempo assustava-me….
Reparava em todos os seus adereços, em todos os seus pormenores, estudava-o minuciosamente mas ao mesmo tempo sentia-me desconfortável como se ele também me observasse a mim…

Depois com a confiança, com o tempo era aonde melhor me sentia… Era o meu oásis. Retirava de mim toda a dor ou tristeza, como que me alimentava e satisfazia de sonhos e desejos que nunca outro local seria capaz de o fazer…

Lá encontrara a paz, sentia-me em paz comigo próprio, o machado de guerra estava enterrado, não era mais necessário estar em posição de defesa. Um local que me fazia sentir em paz comigo mesmo por nele não me(re) ver… Talvez porque nele a via em todo o lado… Isso sem dúvida era o que o tornava tão especial… Desde as cortinas coloridas, aos livros que ela gostava desde miúda, as suas recordações, todas as fotos lembrando momentos, as suas recordações, tudo aquilo que de alguma forma a havia marcado e ela guardara como um pequeno tesouro. Lá desde a essas recordações até ao odor dela se sentir por todo o quarto, ali parecia que a cama era mais macia, o ar mais leve, naquele espaço os silêncios eram belos… não constrangedores e de dor… eram simplesmente calmos e belos… como se fosse simples conseguir algo assim…


Vê-la nos livros, nas fotografias de menina e ver todo o seu crescimento, imaginar tudo o que ela ali sonhou, os momentos em que ali se fechou para se proteger do mundo, para pensar, para descansar, para fugir… Era engraçado… Chega a uma certa altura em que já tinha visto todas as fotografias milhares de vezes, mas sempre as fixava… Era tão linda desde o dia 1… Acho que me teria apaixonado por ela em todas as fases da sua vida… E não conseguia parar de pensar nisso, como gostaria de a ter conhecido antes, como daria tanto do que vi e conheci para ter a hipótese de ter estado com ela em todos aqueles momentos anteriores, em viajar no tempo e conhecê-la, apaixonar-me por ela em todas as fases da sua vida, mesmo aquelas em que ela achava não ser as melhores ou as que achava mais desinteressante…eu era capaz de apostar que eu seria aquele rapaz que a iria abordar e ia ver aquela beleza extraordinária que via nesse momento. Independentemente das mudanças exteriores que ele tivesse ou não.


Gostava de sentir que eu era importante, que o facto daquele espaço tão precioso para ela me ter sido dado a conhecer…ela ter aberto as portas do seu refúgio de sempre para mim, fazia-me sentir especial…

Ali ela era mais ela própria. A sua confiança e desenvoltura era outra, era capaz de se mostrar e de ser mais do que o era noutro qualquer local rodeada de outras pessoas. Sentia-se como uma princesa no seu castelo, ali sentia-se protegida e capaz de simplesmente não se preocupar com o mundo lá fora… sentia-se mais forte, mais segura de si e ao mesmo tempo isso fazia com que ela soubesse que ali podia se mostrar também mais vulnerável…que ali não tinha mal..era o seu mundinho e deixara-me fazer parte dele…. Era como se vivêssemos numa pequena bolha e nada nem ninguém podia ali entrar, só nós conseguíamos ver e sentir aquele mundo.

Nada era mais relaxante para mim… ali o sono aparecia com naturalidade, os fantasmas não conseguiam entrar, …. Todos os momentos ali vividos eram o mais próximo de estar a sonhar que se podia estar estando acordado… Era muito ténue a diferença entre o sonho e a realidade nesse espaço… tanto que hoje não consigo diferenciar bem o que era sonho puro ou realidade que parecia um sonho…

Tratava-se de um local mágico, pois ali sentia-se de forma arrebatada tudo, respirava-se poesia por todos os cantos, ali sentia-me completo… Aquele local tinha a capacidade de me tirar o enorme peso que carregava no peito, qualquer tipo de dor ou ressentimento ou preocupação… Ali sentia que podia de facto descansar.
Nada era mais belo e maravilhoso do que sentir os seus lábios húmidos, o seu beijo antes de adormecer, as luzes apagadas e sentir o seu corpo colado ao meu até adormecer. Ali nada era mais sexy que a ver… nua. Totalmente despida, não falo apenas de roupa, ali ela despia-se de tudo o que carregava também para o mundo exterior…ali também ela se sentia mais leve., ali ela podia retirar a armadura que erguia para o mundo…Nunca a vi com tanta claridade como nesses momentos.


Por vezes espantava-se como eu era capaz de me apaixonar e adorar tudo no seu corpo e como realmente me fascinava a sua beleza…como era genuína a minha admiração…Ao ponto de a intimidar sentir que alguém a via assim… Assustava-a que me tivesse enganado, achava que era impossível alguém a ver como eu a via, sem olhar para ela, vê-la de facto… Comigo se calhar sentia-se mais despida do que nunca e assustava-a estar assim e sentir que comigo ela podia estar totalmente despida sem juízos, recriminações… eu simplesmente admirava tudo. Ficava mais especado e colado nela que em qualquer exposição de arte que pudesse ir…Não havia quadro ou obra mais bela que eu pudesse contemplar, com a diferença que aquela estava ali diante de mim com o seu olhar meio que envergonhado desejando que aquele meu olhar nunca perdesse aquele brilho que tanto a fazia sorrir e sentir especial….Eu também não o queria perder.


Nada me fazia sentir assim… Eu era capaz de admirá-la durante horas…totalmente calado, vê-la dormir ou até mesmo no dia a dia… Da mesma maneira que era capaz de estar horas a ouvir a sua voz, e era capaz de estar horas a falar-lhe de tudo e de nada, era capaz de estar em silêncio com ela….e é muito difícil conseguir-se isso com alguém…
Assustava-lhe pensar como um pessoa tão instável e insegura de si própria e da sua forma de pensar ou sentir podia passar tanta certeza com aquele olhar…Como conseguia passar de forma tão transparente através do meu olhar um sentimento tão forte e intenso por ela sem necessitar de o verbalizar.

Saber que o meu olhar ao vê-la mudava… e era mais genuíno, apaixonante e interessante do que qualquer palavra que lhe poderia dizer que já não houvesse sido dita a outro alguém ou que uma carta que seria mais uma para guardar entre outras que já haviam sido escritas….

Aquilo que eu sentia era mais forte e especial que tudo o que pudesse ter sido dito ou escrito antes… Nada mais puro e genuíno que o meu olhar para ela saber…
Não conseguia entender como para mim, aos meus olhos, ela podia ser tão perfeita estando longe de o ser na forma como se via… Ela adorava senti-lo, dava-lhe uma segurança e conforto o meu olhar…mas ao mesmo tempo assustava como pelos meus olhos ela se podia ver tão perfeita como nunca imaginou poder ser para alguém… Não a censuro… Se eu conhecesse alguém que me olhasse como eu a olhava eu também ficaria assustado…assustado se alguém tivesse as reacções químicas, físicas e emocionais, alguém tivesse essa explosão interna sempre que me via como eu tinha com ela… Saber que podemos ter um efeito tão bom e arrebatador para alguém deve assustar.
Ela era mais bonita, mais interessante e mais perfeita do que qualquer outra exactamente por não o ser… Espantava-lhe como me apaixonava pelos seus defeitos e imperfeições e não apenas os tolerava… era por eles que a começava a amar, mais do que pelas qualidades que qualquer pessoa conseguia ver à vista desarmada.
O facto de ser real fazia-me amá-la, admirá-la… fazia com que ela fosse o mais próximo que pudesse existir da perfeição para mim… O ser ela, com tudo o que isso acarretava, com forças e fraquezas, simplesmente nada poderia ser mais perfeito do que o facto de ela ser assim…real.


Por vezes ficava incomodada com o meu olhar, pedia-me para não a fitar como eu fazia, deixava-a sem jeito o facto de sentir que observava todos os teus maneirismos, todas as suas expressões… Eu dizia-lhe que era impossível parar de olhar para ela… não conseguia…queria vê-la e conhecê-la mais que a qualquer pessoa no mundo. Queria fotografar na minha mente todas as suas expressões, quando estava feliz, assustada, sonhadora, a rir à gargalhada, a adormecer, a acordar, embaraçada, atrapalhada, eufórica, enraivecida, ternurenta…todas… Queria saber a sua história… Queria saber o que lhe interessava, porque lhe interessava, que sentia e a forma de ela sentir…Ela fascinava-me. Tudo nela me fascinava. Como um livro que nunca cansamos de ler ou um filme que vemos vezes sem conta e em todas as vezes encontramos algo totalmente novo e especial que antes não havíamos reparado mesmo já conhecendo os diálogos quase de cor…

.
Era como tocar no céu e voltar saber que ao acordar era o seu corpo (tão perfeito ao meu toque que parecia que havia sido desenhado para mim) que poderia abraçar, seria os seus doces lábios que poderia beijar e saber que seria o seu lindo e ternurento rosto que veria ao acordar, a olhar para mim com o seu lindo sorriso a brilhar para mim, tal como o sol brilhava lá fora, só que aquele sorriso brilhava só para mim… Sentir que tinha aquela linda mulher ao meu lado e ao mesmo tempo aquela menina das fotografias na forma pura de sentir e sonhar comigo…calhava bem, porque eu também era apenas um homem a seu lado, a tentar a aprender a ser adulto mas que ainda tinha dentro de mim aquele miúdo meio tímido e assustado mas com uma enorme habilidade de sonhar… Já não éramos crianças…Cada um tinha as suas cicatrizes, mas ali, naquele espaço, isso perdia importância… Com ela ali do meu lado, conseguia adormecer tão bem, tão feliz e descansado sem me preocupar com o dia de amanhã como nunca o conseguira sozinho… Se calhar desde criança que não dormia assim, quando era ainda muito pequeno e os meus pais ficavam comigo até eu adormecer… Desde aí que nunca me havia sentido tão calmo, seguro, tranquilo… desde esse tempo que não me sentia tão em casa…


No seu quarto eu via os seus sorrisos a sua mágica presença na minha vida, por entre a cor das cortinas iluminadas pela luz do sol quando amanhecia… Sentia que era capaz de passar o dia inteiro sem sair da cama, não sentia nem fome nem sede, ela e a sua presença saciavam-me totalmente, só tinha olhos para ela e era com pena que saíamos dele…Adiávamos o momento ao máximo. Não precisava de mais nada. Tudo o que precisava estava ali naquele quarto. Ela e o seu local mágico iluminavam as minhas sombras, preenchiam-me e faziam com que eu não sentisse as minhas carências…




Era como se todos os meus medos e receios e tudo o que eu não gosto em mim deixasse de fazer sentido e todos os meus defeitos e falhas e tudo o que odeio em mim parecessem coisas tão aceitáveis e inócuas quando estava com ela…




Ela conseguia isso… Quando juntos brincávamos, nos riamos de todas as coisas mais insignificantes que víamos nas pessoas e nas situações… a capacidade de eu me rir dela e e ela de mim sem nunca nos sentirmos ridículos aos olhos um do outro… O tudo nunca parecia demais quando estávamos juntos. Nunca havia cansaço ou tempo a mais juntos…. Tudo parecia ter tanta lógica e bater tão certo quando estávamos juntos… Até para mim que sempre questionei e problematizei tudo… Juntos era como ter a resposta para todas as equações sem nunca de facto ter de me preocupar ou perder tempo a fazer os cálculos ou rever resultados para ter a certeza que estava correcta a solução… Era como um dom inato que alguém tem para escrever, para tocar piano ou cantar e não sabem explicar como conseguem fazer o que fazem e que não está ao alcance de todos, apenas lhes sai assim, de forma natural, faz sentido que assim seja e por assim fazem daquela forma e não de outra e sai algo tão perfeito sem se conseguir perceber como eles conseguem e outros não… Era assim com ela…



A magia não estava afinal no quarto, estava nela… Ou naquele pequeno espaço entre nós…

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Todo irá bien!

Ás vezes deixo.me aparvalhar...Penso em coisas idiotas, sem qualquer tipo de utilidade...E sempre que pintava tudo negro ou parecia que alguém em meu redor o fazia, para o animar na brincadeira cantava esta música em Madrid aos meus amigos. Ouvi-a uma vez na tv enquanto estava na minha habitácion,e a musiquinha ficou na cabeça, assim como a cantora.

Naqueles longas noites de estudo em que muitas vezes o desalento parecia tomar conta, mas no fim das contas "todo te irá bien...". Um sorriso nascia logo a seguir.
Isso e o Hakuna Matata e uma série de reportório bem variado de palhaçadas servia para que ninguém desanimasse.
.
Para que não me aparvalhe muito,fica aqui a musiquita que certamente se estivesse com esses meus amigos nestes últimos tempos eles me cantariam para eu deixar de aparvalhar ou cantaria eu a eles se visse que eles estavam a aparvalhar...Isto depois de eu fazer 50 vezes a mesma pergunta a todas as pessoas se não achavam que a Chenoa devia ter ganha la Operación Triunfo, mesmo só para chatear e ouvi-los a encarar como uma pergunta séria e darem respostas sérias quando eu nem fazia idéia da Operação Triunfo deles quase.lol.

Por isso se alguém que por acaso leia este blog, esteja a aparvalhar,a pensar em coisas estúpidas, esteja a pensar em coisas más e que tudo é mau, cá vai...Não aparvalhem... "Todo irá bien"!;).





ps.Que guapa me ha salido esta Chenoa ah?;)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Lovely





"I just want another night, I just want another try..."


Walz for a night, Julie Delpy


Imagens de:
Before sunrise/Before Sunset